Conheça a trajetória de São João del Rei, do ouro colonial à preservação do patrimônio vivo.

Nascida sob a égide da exploração mineral, a Vila Real de São João del-Rei consolidou-se no século XVIII como um dos vértices da Estrada Real. Este foi o período da opulência religiosa, onde a fé se materializou em talha dourada e pedra-sabão.
A construção da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar (1721) e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis (1774) marcam o auge artístico da vila. Nelas, o Barroco tardio e o Rococó se fundem, com contribuições fundamentais de mestres como Francisco de Lima Cerqueira. Era uma época em que as Irmandades religiosas não apenas construíam templos, mas organizavam a vida social, política e musical da cidade, fundando orquestras que permanecem em atividade até os dias atuais.
O século XIX trouxe a transição da mineração para a estabilidade do comércio e da agricultura. São João del-Rei tornou-se um centro político de relevância nacional, sendo berço de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A cidade recebeu visitas ilustres da Família Real, culminando na inauguração da Estrada de Ferro Oeste de Minas por Dom Pedro II, em 1881.
Neste período, a espiritualidade sanjoanense foi iluminada pelo nascimento de uma de suas figuras mais veneradas: Francisca de Paula de Jesus, a Beata Nhá Chica. Nascida em 1810 no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes, esta filha de escravizados transformou sua origem humilde em um legado de santidade ao dedicar sua vida em Baependi à oração e ao amparo dos necessitados. Primeira leiga negra do Brasil a ser beatificada, sua trajetória é motivo de profundo orgulho para São João del-Rei, simbolizando a caridade e a resistência espiritual que definem a identidade do nosso povo.
Com o apito das primeiras locomotivas a vapor, a cidade modernizou-se sem perder sua essência. O traçado urbano expandiu-se, mas o "centro histórico" permaneceu como um testemunho vivo, onde as casas de telha vã e os sobrados ecléticos começaram a desenhar o horizonte que vemos hoje.
No último século, São João del-Rei soube equilibrar o peso da história com o dinamismo de uma cidade universitária. A criação da UFSJ e a preservação do seu patrimônio pelo IPHAN transformaram o município em um polo cultural. É o período de consagração de figuras como Tancredo Neves, cujo legado político nasceu nas ruas de pedra da cidade.
Hoje, a cidade mantém viva a "Linguagem dos Sinos", reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil, garantindo que o diálogo entre o passado colonial e o futuro digital continue ecoando em cada badalada.
Chegada de Tomé Portes del-Rei ao Porto Real da Passagem.
Elevação à categoria de Vila Real de São João del-Rei.
Início das obras da Igreja de São Francisco de Assis.
Nascimento de Nhá Chica em Santo Antônio do Rio das Mortes.
Inauguração da EFOM por Dom Pedro II.
O conjunto arquitetônico é tombado pelo IPHAN.
O toque dos sinos torna-se Patrimônio Cultural do Brasil.